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11 de novembro de 2009

Sófocles - Antígona



O desfecho da tragédia tebana produzida por Sófocles se dá em "Antígona", que, ironicamente, foi a primeira obra desenvolvida pelo dramaturgo grego, sendo escrita provavelmente no ano de 442 antes de Cristo. Embora extremamente antiga, a obra retrata conceitos que hodiernamente são questionados com imensa cautela, a exemplo do controle estatal, da desobediência civil, das leis naturais ou religiosas e da estrutura familiar.

Etéocles e Polinices, irmãos de Antígona, eram hierarquicamente os primeiros a possuir o trono da cidade tebana porque Édipo fora exilado por ter cometido o crime de parricídio e a conduta de incesto, sendo estabelecido então um justo sistema de revezamento inter-familiar no governo. Influenciado pelos deuses, Etéocles, em um surto de prepotência, expulsa seu irmão da cidade para que assim obtivesse pleno domínio sobre a mesma.

Como visto em Édipo em Colono (já postado no blog), Polinices busca ajuda de seu pai, que fortemente amargurado com seu filho, recusa o pedido. A atitude salvadora então era buscar uma aliança com a cidade de Argos para que através de uma guerra pudesse destronar seu irmão.

Tragicamente nem a proteção de Zeus sobre os tebanos nem a o manto sagrado que Ares jogou em Argos conseguiu evitar que os irmãos viessem a falecer. E ainda de forma dramática: munidos de lanças, ambos perfuraram brutalmente o corpo de seu oponente de mesmo sangue.

Creonte, herdeiro do trono, sepultou Etéocles e ignorou o corpo de Polinices, suposto traidor, deixando-o ao léu para que as aves e cães devorassem o resto de sua carte putrefata. Não obstante, o ditador promulgou uma lei na qual quem concedesse as devidas honras fúnebres ao inimigo tebano, seria punido severamente pela soberania do rei.

Antígona, irmã de Polinices e noiva de Hémon, filho de Creonte, ameaçou as leis do Estado e concedeu um enterro digno ao seu consanguíneo. Ao ser desmascarada, Creonte obriga que, como castigo, ela fosse colocada em um caixão e colocada sob a terra com alimentos suficientes para que ela não morresse desnutrida. Seu objetivo com a pena era fazer que ela passasse o resto de sua existência "nem sobre a terra, nem entre as sombras, nem no meio dos vivos, nem com os mortos", para que em sua solidão ela pudesse se arrepender por ter desafiado o Estado.

A população tebana discordava desse ato arbitrário de Creonte, mas permanecia inerte por ser cômoda e medrosa perante o ius puniendi.

Hémon, filho de Creonte e noivo de Antígona, pede ao pai que volte atrás em sua decisão, pois, sabendo que a cidade era contra o que se sucedia, alegou o fato de que "não existe cidade onde um homem governe sozinho" e que caso insistisse na idéia de manter sua noiva sob a terra, ele "seria um soberano no deserto" por não respeitar a democracia. O sucesso entretanto, não foi obtido.

Sabendo dos fatos, Tirésias, o adivinho, apresentou-se ao palácio para avisar que caso Antígona não fosse liberta, Tebas cairia em profunda desgraça. Por mais que tenha pensado várias vezes e ter sido contra a adivinhação, o rei tebano acaba optando por libertar a prisioneira enterrada.

Mas já era tarde demais, Antígona havia enforcado-se com um pedaço de pano de linho. Hémon, desnorteado, subtrai a espada de um dos guardas e tenta cortar seu pai fatalmente. Sem sucesso novamente, ele se vê em desespero e suicida-se com o mesmo objeto que traria a vida de seu pai ao fim, caindo em cima do corpo de sua amada. Eurídice, mãe de Hémon, em igual angústia, machuca seu fígado até a morte.

Creonte vendo a morte de seus familiares perde sua sanidade, pedindo desculpas aos céus por ter sido tão intransigente. Os guardas começam a retirá-lo do cenário, finalizando assim uma das mais trágicas histórias de toda a Grécia Antiga.

Por Italo Lins

8 de novembro de 2009

Sófocles - Édipo em Colono



Seguindo a ordem cronológica, "Édipo em Colono" é considerado uma ponte cuja ligação ocorre entre as obras "Édipo Rei" e "Antígona" que, apesar de importante para a tragédia grega, não é  a peça mais animadora da trilogia edipiana pela razão de ser muito eloqüênte e inercial.

Servindo de subsidio a história do livro anterior; angustiado por tomar ciência de que matara seu pai e casara-se com sua mãe, Édipo arranca seus olhos, a fim de que sua existência, em um ato de autopunição, tornasse-se uma caminhada rumo ao desconhecido em escuridão plena. Não obstante, Polinices e Eteócles, seus próprios filhos, exilaram-o de sua terra natal porque consideravam o crime de parricídio e a conduta incestuosa imperdoáveis, temendo uma possível maldição divina para todos os tebanos.

Embora nenhum humano pudesse impedir que essa praga ocorresse.

Sem pátria, visão e amor próprio, Édipo tornou-se um mendigo errante que caminhava pelos solos gregos guiado pela sua filha fiel Antígona, que nunca o havia abandonado. Perdidos, pararam para descansar sobre uma rocha em terras próximas a Atenas, a fim de buscar informações do local no qual pisavam. Ao saber que estavam na terra sagrada de Colono, um aldeão, vendo o estado deplorável dos estrangeiros, induziu-os a retirarem-se de onde estavam, pois envergonhavam os deuses sagrados.


Febo, filho de Zeus, outrora mencionara que Édipo morreria em solo divino, e que a nação a qual cedesse um túmulo para o sofredor seria abençoada pelos deuses. Lembrando-se disso, começou a contar sua história, chegando à conclusão de que realmente não era culpado pelos crimes cometidos, já que havia matado seu pai por uma questão de legítima defesa e não cogitava o fato de sua esposa na verdade ser sua mãe.

Comovidos pela tragédia, os cidadãos da aldeia concordaram em chamar Teseu, imperador de Atenas, para que Édipo pudesse propôr um acordo que traria prosperidade à democrática cidade grega a qual governava.

Enquanto esperava a chegada do imperador, Ismênia aparece em seu cavalo para comentar o ocorrido entre Polinices e Eteócles. Este, movido pela ganância, havia expulsado aquele de Tebas, que agora juntara-se a Argos com a intenção de declerar guerra entre as duas cidades. Édipo nada comentou e, ao ver seu filho Polinices chegar para dialogar e pedir aliança em seu conflito contra o irmão, acabou por negar uma mão amiga.

Sons de cavalos trotando chegavam aos ouvidos dos presentes e o Coro (quinze cidadãos de Colono) anunciava a chegada de Teseu, que chegou a um acordo mútuo com Édipo, alegando mover suas tropas em defesa do cego, caso necessitasse.

Creonte, ao saber da notícia do túmulo sagrado edipiano, exigiu que o mesmo fosse a Cadmo (cidade nas adjacências de Tebas) para que sua cidade não caísse na maldição dos deuses. Movido pelo orgulho e sustentando sua moral, Édipo nega a exigência e ouve suas filhas Antígona e Ismênia serem raptadas pelas tropas de Creonte. Minutos após o evento, Teseu e seus homens derrotam os inimigos e trazem as donzelas de volta ao pai.

Por fim, ao sentir que a hora de abandonar o mundo dos vivos havia chegado, Édipo retirou-se com Teseu apara que fosse enterrado em um lugar onde apenas eles e os deuses sabiam, para que seu corpo não fosse violado por outrem. A maneira como morreu, ninguém nunca soube.

Antígona e Ismênia então voltaram à Tebas, encontrando condições plenas de gozar a vida e assistir a batalha sanguinária entre seus irmãos Polinices e Eteócles, que ocorrerá no próximo livro, que leva o nome "Antígona".

Por Italo Lins

4 de novembro de 2009

Sófocles - Édipo Rei


 
Entre os anos de 500 e 400 a.C, os principais dramaturgos gregos (Ésquilo, Eurípedes e Sófocles) produziram vastas obras teatrais, nas quais as temáticas centrais questionavam o destino, os dizeres divinos, as ordens imperiais e os conflitos sentimentais. O desfecho de grande parte dessas histórias são anti-heróicos e emocionantes, dando nascimento então à Tragédia Grega. Édipo Rei, obra-prima de Sófocles (496 - 406 a.C), segundo Aristóteles, é a peça que melhor define o teatro trágico grego, já que o autor conseguiu exprimir com perfeição todos os problemas e caminhos da auto-destruição humana.

Jocasta, rainha de Tebas, grávida de seu primeiro filho com o rei Laio, aguardava ansiosamente as visões do futuro emanadas pelo Oráculo, atitude já costumeira na região. A resposta, porém, nada agradou: o fruto que guardava em seu ventre mataria seu marido e casaria-se com ela. Após o nascimento da criança, a mensagem relatando o parricídio e o incesto chegaram aos ouvidos de Laio, cuja reação foi obrigar que amarrassem os pés de seu filho e levassem-o às montanhas, para que então morresse desnutrido ou que servisse de alimento aos lobos. A tentativa de homicídio entretanto, falhou. Édipo (que significa "pés-inchados") foi levado a Pólibo, rei Corintio, que era incapaz de conceder um filho, permanecendo naquele império.

Anos depois, já crescido e consciente de suas ações, Édipo consultou o Oráculo da região na qual vivia, recebendo a mesma mensagem emitida à sua mãe biológica, Jocasta. Não sabendo que Pólibo e Mérope (mulher de Pólibo) não eram seus pais verdadeiros, foge de Corintio com o intuito de não deixar margem de chance que as atrocidades ditadas pelo Oráculo pudessem tornar-se reais. Em meio a sua fuga, encontrando uma encruzilhada, entra em conflito com uma caravana que vinha a caminho, matando então a figura que vinha sendo escoltada pelos guardas. Não sabia então, que havia matado Laio, seu próprio pai.

Às proximidades de Tebas, a Esfinge¹ (figura à esquerda), enviada pela deusa Hera para punir Laio por certas ações, devorava os transeuntes que não decifravam seu enigma. Ao ver o viajante das pernas marcadas, ela perguntou: “Qual seria o animal que anda com as quatro patas no período do amanhecer, duas ao meio-dia e três início do entardecer?” . Édipo, sem titubear, respondeu que era o homem, por engatinhar com os quatro membros quando bebê, andar ereto sobre as duas pernas quando adulto, e se apoiar na bengala quando idoso. A Esfinge, derrotada, jogou-se do precipício, trazendo paz à comunidade tebana.

¹ O mais curioso é que essa passagem não está explícita em nenhuma obra da tragédia grega, sendo relatada apenas em notas de rodapé.

Adentrando a cidade, o herói Édipo é considerado rei, casando-se então com Jocasta e concebendo quatro filhos: Antígona, Ismênia, Etéocles e Polinice. Não sabia novamente, que estava produzindo filhos que na verdade, poderiam ser seus irmãos.

Outra maldição então, assolava os ares de Tebas: o assassino de Laio deveria ser desmascarado. Édipo, agora rei, prometeu que procuraria esse criminoso até seus últimos dias, e que o mesmo deveria entregar-se para ser punido fortemente. Desesperado, chama o adivinho Tirésias, que após momentos de hesitação, afirma que o assassino do Laio é o atual rei. Essa notícia sem fundamentos deixou Édipo incrédulo, levando-o a julgar Tirésias como charlatão, pois pensava que não havia cometido tais crimes. Surge então, a idéia de convidar o camponês encarregado a levar o mitológico filho entre Jocasta e Laio às montanhas, a fim de tirar qualquer dúvida remanescente. Ao chegar ao palácio, o camponês afirma que de fato Édipo é filho de Laio, mantendo-se o caos na cidade.

Jocasta, puramente frustrada, comete suicídio enforcando-se em seu quarto. Édipo, ao ver a cena, em extrema angústia, arranca as suas órbitas oculares com um gancho para que vivesse em eterna escuridão.

A história do Édipo Rei influenciou a psicanálise freudiana, remetendo à expressão "Complexo de Édipo" uma fase da infância na qual as crianças do sexo masculino desejam manter relações sexuais com sua própria mãe, criando então, um vínculo de dualidade entre amor e raiva com o a figura do pai. O oposto desse caso (vontade sexual da filha para com o pai) é considerado "Complexo de Electra", que futuramente será postado no blog.

Por Italo Lins