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24 de março de 2010

Segunda Guerra Mundial em Areia


Emocionante. Não há outra palavra que consiga descrever de uma maneira mais precisa a fascinante obra de arte que a ucraniana Ksenia Simonowa produziu com suas próprias mãos e uma porção de areia. O fundo musical de gênero clássico, o pesante contexto histórico que relata o sofrimento da guerra, a leveza das mãos da artista, a variação e mistura de sentimentos (os quais navegaram da angústia à esperança), dentre outros inúmeros atributos, conseguem fazer qualquer humano que não se entregou ao estoicismo emocionar-se.

Além da incrível habilidade de Ksenia, é intrigante perceber como a linguagem não-verbal possui sentidos e objetivos próprios. Cabe então ao receptor da mensagem interpretá-la e misturá-la com suas próprias vivências e sentir o que está proposto.

O vídeo mais belo que tive a oportunidade de assistir até o momento, neste ano.

Por Italo Lins

3 de dezembro de 2009

Mutilação de Criatividade Institucionalizada

ABC; 1, 2, 3; iluminismo, regra de três e cromossomos. À grosso modo, essa é uma escala "evolutiva" que todos nós seguimos na época na qual frequentávamos o colégio. Achávamos que aprendendo a função dos ribossomos ou decorando quantas fases possui o período de interfase do núcleo celular, teríamos o necessário para ser um intelectual, um profissional extremamente capacitado, uma pessoa digna. Repare e pense: o que diabos isso tem a ver com dignidade, afinal?



Na escola nós não aprendemos mais a ser éticos, inteligentes, humanos. Digo isso em relação a nós, frutos do sistema educacional do século XX ou XXI. Não tenho medo de falar que não fomos ensinados a ser humildes, e que nossos dotes artísticos em absoluto foram castrados por uma faca afiada, mas por conta da anestesia, continuamos a salivar como animais irracionais ao ver um pedaço de carne no chão. Anestesiados estamos a  tal ponto que de fato custamos a perceber que caminhamos no sentido contrário à transcendência ou a o que realmente precisamos: humanidade, ou seja, a ferida ainda está aberta.

Não é meu objetivo falar nesta postagem sobre o despreparo dos professores ou do descaso do governo em relação aos estudos, o que me faz repetir: a minha visão é exprimir os erros dentro do próprio ato de ensinar.



Não focarei também minha crítica ao sistema capitalista. Ao menos, volto a dizer, não nessa postagem. Mas é clara a percepção de que desde que começou a ser necessário um investimento técnico para se tornar um profissional - de qualquer área - o ensino institucional tornou-se uma máquina enferrujada que produz robôs defeituosos. Defeito esse que surge em dois sentidos: moral e prático. A primeira causa se dá por ser um esforço inválido, e a segunda, por muitos sequer terem a capacidade de fazer algo errado corretamente.

A maior parte dos ensinamentos são focados a um futuro incerto no qual seremos induzidos a ser o que na verdade, nada pode ter a ver com nossa essência, pois o "certo" é visar ao lucro. Mesmo que ninguém ouse mencionar isso explicitamente.

"Choose your weapon": medicina, direito ou engenharia?

E não venha com o argumento de que eu sou um frustrado por não ter conseguido a aprovação em qualquer desses cursos, já que este ano, estou a abandonar o curso de direito por ter notado que o mesmo nada tem a ver comigo.

Mas o que aconteceu com a aula de música? Com as aulas de pintura ou história dos índios? Foram jogadas no lixo, assim como nós seremos quando estivermos prestes a buscar a aposentadoria. É verdade, de uma maneira bem distinta quando comparada a países como Japão ou Canadá, o nosso respeito aos idosos é mérito de vergonha absoluta.

O vídeo abaixo retrata uma palestra de 20 minutos - desta vez ninguém pode reclamar da duração dos vídeos (risos) - que fala um pouco sobre o meu ponto de vista, e creio que seja extremamente válida de ser assistida:



Parte 2, clique AQUI.

Por mais que pareça, eu não estou querendo dizer que as escolas são inúteis. Muito pelo contrário, a minha vontade é demonstrar que o caminho da educação está errado, distorcido. Eu entendo que através do ensino, caminhos para o mundo das drogas e da ignorância são dizimados, dentre outros aspectos positivos. Mas, no primeiro momento em que nós quisermos preservar a figura do humano, nos desapegando - o que não quer dizer, "livrando-se" - dos bens materiais, poderemos investir em uma educação de qualidade e capacitante, o que nos fará afinal, ser um país de primeiro mundo não no sentido material, mas intelectual e moral.

O primeiro grande passo é fazer com que os professores ouçam mais e vomitem menos. Apesar de sermos - ironicamente - iguais perante o poder da Constitucional, nós, de fato, somos distintos no âmbito do entedimento e da interpretação do mundo, já que viemos de diferentes realidades.

Concluindo, os ensinamentos cujo foco baseia-se em vestibulares ou profissões socialmente reconhecidas, nunca serão de grande utilidade moral, já que, como dizia Kant, a ação muitas vezes depende da qualidade da intenção.

Por Italo Lins

30 de novembro de 2009

Tempo, Arte e Braid

O que é o tempo? Há várias repostas corretas e excludentes. Tempo físico e tempo psicológico, por exemplo. Ambos são “tempos”, mas a concepção deles, na sua essência, é completamente dissonante. Quem nunca passou por aquele único segundo que pareceu se prolongar por minutos?

Todos sentimos o tempo diferentemente, em situações diferentes. Entretanto, o tempo passa para todos, da mesma maneira. Acredito que a passagem do tempo é uma das maiores provas que o pensamento pode alterar a realidade, ou seja, que a realidade não é uma só. Há uma realidade singular para cada um que faz parte dela. A realidade é absoluta e relativa, simultaneamente, como eu falei que são os Perpétuos, em Sandman. Sim, os perpétuos podem servir de símbolos para a realidade.

O que nos lembra, como eu falei no post sobre arte, que cada pessoa percebe a arte de forma singular, única. O que nos leva à conclusão de que arte é uma realidade. Criar arte é criar realidades. O artista é um mago, que, segundo seus sentimentos, altera e cria realidades fantásticas, como Gaiman em Sandman.

A partir disso, quero conceituar aqui um jogo – sim, um videogame – como arte. O que faz de uma obra, uma obra de arte? Sentimento, vínculo afetivo, estética? Um jogo possui tudo isso e mais algo. Se cinema é uma arte – que, por sinal, envolve as demais – como um jogo não o é, também? Ademais, um jogo tem um elemento que lhe é inerente e muitíssimo peculiar: a interatividade, que torna muito mais propícia a imersão do usuário. Sim, as demais artes tem, cada uma a seu modo, interatividade – acredite ou não –, mas, nos jogos, isso se torna muito mais evidente.

Quando no início dos videogames, era fácil notar como cada jogo era feito quase que artesanalmente, e, quem joga há algum tempo, sabe da sensação de saudosismo que traz um jogo clássico. Com o crescimento absurdo do mercado de games ao redor do mundo, os games tornaram-se, logicamente, muito mais comerciais, uma mídia a mais para divulgação de uma franquia, muitas vezes. Entretanto, com o crescimento desse mercado, veio sua maturidade, e, hoje, eu vejo uma esperança de algo que há algum tempo já imaginava: o reconhecimento de games como arte.


O mais claro exemplo disso veio com jogos recentes, como Braid e Machinarium, por exemplo, que elevam – ou relembram – os jogos a outros ares. Da primeira vez que vi Braid, fiquei abismado com aquele cenário que mais parece uma pintura impressionista, com cores aparentemente escolhidas a dedo para criar uma harmonia única, que eu vi em telas de poucos pintores. Ouvi aquela música acalmante, imersiva, solene, triste. Vi aquele homenzinho correndo, de maneira tão bem feita, que, minha reação foi dizer, espantando “que jogo é esse?!”.
As referências visuais ao clássico – e por vezes reconhecido em demasia – Mario são óbvias: o monstrinho que parece um goomba, uma planta carnívora que sai de um cano verde, um dinossaurozinho. Todavia, as semelhanças param aí.
Você inicia Braid em um cenário de uma cidade escura, deserta, e adentra em uma casa, sem entender muita coisa. Dividida em alguns cômodos, essa casa tem algumas portas, e cada uma delas leva a um quarto completamente composto de nuvens – belíssimas, encantadoras nuvens – e alguns livros, nos quais você vai lendo a misteriosa história de romance do herói com a chamada Princesa. Curiosamente, você começa pelo Mundo 2, quando, aparentemente, Tim - personagem principal - perde a Princesa.

A mecânica do jogo é completamente baseada em quebra-cabeças, puzzles em que você, muitas vezes, precisa parar e pensar durante minutos a fio como resolver. Todavia, você tem consigo uma das melhores armas possíveis para tal: o tempo. O tempo, que, apesar de ajudá-lo em diversas situações, por vezes, atrapalha bastante. O seu objetivo é pegar as peças de quebra-cabeças de cada mundo, para ir montando a história de Tim.





O que mais me faz pensar enquanto eu jogo esse jogo, é como a concepção de uso do tempo – apesar, de em termos newtonianos, não pudermos voltar no tempo – se encaixa conceitualmente com a vida. Por exemplo, em um dos mundos, você precisa se utilizar de uma “sombra” de Tim que aparece quando você volta no tempo. Se nos desvencilharmos da idéia de voltar no tempo literalmente, podemos imaginar como é comum essas sombras do tempo que passou interferir na nossa vida atualmente.

E como não considerar algo assim arte? Quando você conhecer a realidade em Braid – e puder abolir o preconceito de videogames –, tenho certeza de que mudará sua concepção de arte e de jogos. Braid é uma obra de arte desde a sua estética ao game design em si. Espero, então, que a partir daí, possam surgir vanguardas, movimentos artísticos de jogos.

Para fazer o download de Braid via torrent, clique AQUI.

Por Eduardo Souza

28 de novembro de 2009

Arte, Artista e Devaneios

Antes de começar, acredito que esse post será algo muito pessoal, que será tornado universal, o que o tornará muito falho, devido à imaturidade conceitual, profissional e artística que eu tenho.

Eu gosto das histórias de como algumas coisas são criadas. São coisas cotidianas, inocentes, que passam a ter um papel decisivo na vida das pessoas, graças a elas mesmas. Nesses dias, um amigo meu me mandou a transcrição de uma carta de Rainer Maria Rilke, poeta do início do século XX, que era uma resposta a um escritor iniciante. Esse texto pode ser lido – e eu recomendo – AQUI.

A partir dele, devo dizer, eu vou encarar este texto que escrevo e que você lê como uma concepção artística. Ou seja, como Rilke fala na carta, “uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade” e, ao tentar me expressar sobre a arte para vocês, pode nascer uma obra de arte boa. Ou seja, all the words are gonna bleed from me, and I will think no more.

“(...) Relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade.” 

É esse um dos conselhos que Rilke dá ao jovem escritor. O artista não pode, em hipótese alguma, ser indiferente ao mundo. Como Raphael Draccon fala, ou você o ama ou o odeia, mas é preciso que um artista possua uma visão passional do mundo para poder ter os caminhos de expressão abertos para a arte. Como não lembrar, então, do jovem Werther, que, tão dedicadamente descreve as montanhas, o horizontes, as árvores e os lagos que observava em suas caminhadas, apaixonado por Carlota?


Além de tudo, ser um artista é muito perigoso. Refiro-me à acepção conceitual de “artista”, como comportamento. Você se frustrará, sentirá um misto de sentimentos difíceis – ou impossíveis – de serem explicados, e ainda terá que saber usá-los a favor de si. Usá-los como um meio pra entrar mais profundamente em si mesmo, e trazer isso pra fora em forma de arte. Mozart compôs o Requiem dessa maneira; Beethoven, a nona sinfonia; Van Gogh, vários de seus mais famosos quadros. Entretanto, a alegria também fará com que obras geniais fluam. Dalí é um claro exemplo disso, que teve em sua mulher, Gala, muito da inspiração necessária para compor e pintar seus quadros. 

“As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou”. 

Completando eu disse no post sobre a música, há coisas que as palavras não expressam. Sentimentos que conceitos não alcançam. Esse – acredito – deve ser um dos maiores desafios dos escritores. E dos pintores. 

Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas.” 

É difícil classificar arte – principalmente poemas – como bons ou ruins. Afinal, para classificar, é preciso definir. E definir arte é algo impossível. Você pode reconhecer uma boa arte – ou não –, mas não consegue definir. O que diferencia os bons dos ruins, então? Inexplicável. Entretanto, logo depois, Rilke explica como saber se seguir, ou não, esse caminho. 

“Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: ‘Sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda.” 

Acredito que todo artista – ou artistas to be, como eu – já passaram por isso. Segundo Alan Moore, um artista é um mago, que distorce a realidade, expressa algo que as outras pessoas não podem jamais alcançar, por estar dentro da alma do criador. E, não importa o quão desencorajador possa parecer, quando alguma coisa de dentro o manda pintar – ou escrever, ou tocar, ou dançar, ou esculpir –, você sabe que, de fato, quer aquilo. Sabe, que, mesmo quando dá um tempo da arte, aquilo está lá, dentro da sua mente, sendo fomentado e se preparando para quando aparecer novamente.


“(...) e depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons.”

E eis as amarras das quais é necessário nos libertar. Entretanto, como seria uma arte apreciada se não for considerada boa? Como atingir a satisfação pessoal, se não importa perguntar se são bons? É aí que um verdadeiro artista transcende a necessidade comum de ser admirado, reconhecido, de ter o ego massageado. Embora isso vá acontecer, não é a preocupação dele. O fazer artístico dele começa e acaba em si, para saciar aquela voz, aquela vontade, e, quando é feita, a consciência acalma, sabe que está em seu lugar. “Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora.”  

Essa, portanto, deve ser a verdadeira humildade. A humildade que Jesus, o homem, possuía. Por isso, que um verdadeiro artista não é cheio de si, não é auto-suficiente, não é arrogante. Não é ególatra. Se a leitura dessa carta, por exemplo, for feita também nas entrelinhas, é possível notar a humildade – não a falsa modéstia – com a qual Rilke trata o escritor iniciante. 

Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde.” 

Esse conselho me parece particularmente interessante. Apesar de a vida e os sentimentos humanos seguirem padrões comportamentais, cada um, ainda assim, é um universo, dentro de suas mentes. O artista é aquele que consegue tocar esses parâmetros imutáveis e adicionar as variáveis individuais, sentindo a vida em si, sem se deixar levar.

Quero adicionar, a capacidade de contemplação que é – acredito que seja – inerente a um artista, embora não seja vantajosa apenas para artistas. Coisas simples, como ver a graciosidade no vôo de um pássaro, a pureza de uma nuvem, a beleza de uma flor solitária, a aspereza de uma folha seca, a variação da cor do céu, a elegância de um gato de rua deitado; coisas que, no dia-a-dia, passam despercebidas, que assumem uma importância notável apenas em sua mente, e torna difícil achar alguém com quem seja possível dividir esses pensamentos de maneira recíproca.

Relendo esse texto, vi que não foi nada do que eu pensei que seria. Entretanto, foi isso que saiu – sem pensar – da minha reflexão sobre a carta. Talvez, depois, eu escreva novamente, fazendo o que eu havia pensado. Talvez não.

Por Eduardo Souza