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14 de março de 2010

Teoria do Caos e a Insignificância

Uma das coisas que sempre me deixaram muito impressionado é como as chamadas ciências exatas são, em seu mais alto nível, extremamente teóricas; como a partir de cálculos e expressões matemáticas, é possível extrair teorias e correntes filosóficas. É um trabalho de uma abstração e de uma sutileza impressionante.

Um dos exemplos disso é a física quântica, que a partir da relação de forças entre partículas sub-atômicas, faz com que repensemos sobre todas as áreas do conhecimento humano. Outra dessas é a Teoria do Caos.


















Segundo a Wikipedia,
"
Teoria do caos, para a física e a matemática, é a teoria que explica o funcionamento de sistemas complexos e dinâmicos. Em sistemas dinâmicos complexos, determinados resultados podem ser "instáveis" no que diz respeito à evolução temporal como função de seus parâmetros e variáveis. Isso significa que certos resultados determinados são causados pela ação e a interação de elementos de forma praticamente aleatória."


Popularmente, conhece-se essa teoria através da situação alegórica de que o bater das asas de uma borboleta pode provocar um furacão do outro lado do mundo. Apesar dessa alegoria um tanto hiperbólica, é possível daí extrair a essência da teoria: que o mínimo pode alterar o todo.

Entretanto, para mim, isso é uma dúvida recorrente. É verdade que tudo que fazemos altera para sempre a história do mundo inteiro que nos cerca? Teoricamente, é fácil criar uma situação em que isso aconteça - como o caso da borboleta -; por outro lado, na prática, a veracidade disso é dubitável. E isso é fácil de provar: como alguém que acabou de morrer de fome na África influenciou sua vida? Ou mesmo na sua cidade, alguém que você não conheça, que não seja relacionada a você de maneira alguma?


Acho muito encantador, também, imaginar que cada ação minha, em meu dia, possa ter alterado a vida de cada um que passou por mim. Talvez, um olhar que eu possa ter dado pra alguém enquanto caminhava na rua possa ter mudado a vida dessa pessoa completamente. Ou não. Ou ela simplesmente ignorou um olhar estranho, desconhecido, talvez inoportuno.

Isso me leva a pensar no contraste entre a pessoa que pode alterar seu mundo e a pessoa-número que o sistema em que vivemos nos faz ser, em que a única coisa que importa é nosso poder de compra. E como somos manipulados pela publicidade e pela mídia. Só consigo imaginar como, cada vez que vou ao supermercado, eu passo a me encaixar em um público-alvo, no qual um administrador baseou seus cálculos para fazer sua multinacional lucrar alguns bilhões a mais.

O tipo de poder que nos é inerente com a capacidade de alterar o futuro com qualquer uma de nossas ações é igualmente assutadora e estimulante. É a faca de dois gumes mais afiada que eu consigo imaginar para cada consciência. Se tomarmos parte da outra visão, é possível que eu ou você passemos pela vida despercebidos, como alguma espécie vegetal inimaginavelmente única, que floresce e morre, sem que nada no universo dê por falta dela.


De qualquer maneira, algo que eu tenho observado desde algum tempo é como dois conceitos completamente distintos e excludentes podem, paradoxalmente, ser conciliados e coexistirem. Como livre-arbítrio e destino, por exemplo. Então, é possível que tenhamos essas duas faces: alterarmos a vida daqueles que nos cercam - amigos, pais, filhos - e sejamos igualmente insignificantes para o resto do mundo. Por fim, uma pergunta que é ainda mais inquietante: termos essas duas faces é ruim?